outra vez natal?
Por Susana Ruth Vasques
Gravura de Miguel Vasques
“Ruas iluminadas, presépios. /Festas, comemorações, sorrisos e sérios./As promessas, os guardados.../ Os pedidos, os bilhetes, os segredos./As surpresas e as delícias. / A espera, a noite a caminho. /A janela, cortina de linho. /A árvore, um pinheirinho. /A chaminé, cor de vinho.(Ninfa Parreiras, in “Coisas que chegam, coisas que partem”, Cortez Editora, S. Paulo, Brasil)
Já começam a vir os mails com árvores de Natal, com anjinhos e velas, com desejos de santo Natal – (o natal que é uma festa pagã)! Com palavras de paz, solidariedade, fraternidade, alegria, bem-estar, piedade, compaixão, etecetera e tal!
Uns falam em pobres que não têm Natal, outros em pão e bolos que não chegam a todas as bocas, outros em festa e comida à farta, perus e sonhos, coscorões e fatias douradas, ananás e nozes, pinhões e figos secos, outros ainda dizem que há guerra em muitas frentes e não se devia festejar o santo dia, o tal dia do ano, em que se festeja o nascimento do menino Jesus, um menino como os outros, mas bem comportado, caridoso, sonhador – sonhava com um mundo melhor, certamente!,
E aqueles mails – estamos na era do computador (embora ainda haja quem envie cartões com anjos, velas, bombons e bonecos, tudo mesmo bonito, verdade seja dita, grande negócio também e ainda bem, sempre ganham alguns)... Aqueles mails, dizia eu, que vêm falar da festa da família, da reunião dos filhos e avós, dos tios da província e de alguns amigos solitários, “ah tanta gente, casa cheia, vou ter tanto trabalho, santo Deus, que grande chatice (diz-se em voz baixa), tantas compras para fazer, tantas prendas para embrulhar com fitinhas e tantos nomes para escrever em cada pacotinho ou pacotão, até chega a haver bicicletas e automóveis, com grandes laçarotes, livros e jogos, frigoríficos (o velho está a acabar), máquinas de café especiais, jóias baratas e caras, casaquinhos de malha e peúgas, cuequinhas de renda, caixinhas bonitas com preservativos, caixinhas de pó de arroz, perfumes baratuchos e carotes, CD e DVD, computadores, pianos, quadros, álbuns para vários serviços, caderninhos, caixas com lápis de cor, brinquedos dos mais diversos, sempre muitos, bonecas e casinhas, caminhas, lápis de cor, bolas para jogar no terraço, ou nos jardins, bolas de sabão, patins, sapatos de verniz, botas de salto alto, meias de lã, meias de seda com risca, à antiga, meias eróticas com rendas que colam, o pai Natal traz tudo no seu saco enorme, os meninos escrevem a pedir e os graúdos também.
O que é que eu pedi? ah, já sei, um penico de loiça, dá-me jeito, não me apetece ir de noite a casa de banho e um anel com um brilhante, porque não?, também sou gente, enfim também escrevi, como se deve, a pedir paz e fraternidade e essas coisas todas que um ser bem pensante e bem formado deve pedir.
Juro que nada tenho contra a festa natalícia, até a vou festejar com amigos, oferecer prendas, telefonar à família que está na cidade, eu estou no campo, embora no passado recente nos tivéssemos juntado muitos anos seguidos. Agora não dá muito jeito, embora os netos gostem sempre, ainda e sempre!
O problema é que fazem todos anos pelo Natal...também são quase meninos Jesus... e há que escolher entre aniversários e Natal, às vezes nem uma coisa nem outra, já me doem as costas para andar de cá para lá e de lá para cá...
Peru e bolo rei, sumos de tudo, vinhos brancos e tintos, champanhe, porque não?, arroz de pato e canja de galinha, bombons e mousse de chocolate, arroz doce e leite creme, salada de frutas – com manga e papaia, também – morangos com natas, iguarias sem fim. O menino pobre tem o nariz colado à vitrina de uma pastelaria qualquer – quadro típico da noite de natal, para fazer mal à nossa consciência – mas será que a temos? Claro que a temos, a consciência, canetas de marca e canetas sem marca, gatinhos e cãezinhos de peluche e verdadeiros, quer dizer, vivos, aquários com peixinhos ou gaiolas com passarinhos, vá lá não serem fritos..., como na taberna da minha infância, lá na Graça.
Muitas coisas, muitas coisas, muitas coisas. Será que o pai Natal pode trazer moradias? piscinas? campos de golfe? de ténis? cavalos e picadeiros? espingardas e bombas?
Estou a ser má, eu sei, ou irónica, coisa para nunca tive jeito, mas desculpem lá os meus leitores, bem me conhecem, só venho desejar um Feliz Natal, afinal!
Sítio da Cumeada, vésperas do Natal de 2009
“Ruas iluminadas, presépios. /Festas, comemorações, sorrisos e sérios./As promessas, os guardados.../ Os pedidos, os bilhetes, os segredos./As surpresas e as delícias. / A espera, a noite a caminho. /A janela, cortina de linho. /A árvore, um pinheirinho. /A chaminé, cor de vinho.(Ninfa Parreiras, in “Coisas que chegam, coisas que partem”, Cortez Editora, S. Paulo, Brasil)
Já começam a vir os mails com árvores de Natal, com anjinhos e velas, com desejos de santo Natal – (o natal que é uma festa pagã)! Com palavras de paz, solidariedade, fraternidade, alegria, bem-estar, piedade, compaixão, etecetera e tal!
Uns falam em pobres que não têm Natal, outros em pão e bolos que não chegam a todas as bocas, outros em festa e comida à farta, perus e sonhos, coscorões e fatias douradas, ananás e nozes, pinhões e figos secos, outros ainda dizem que há guerra em muitas frentes e não se devia festejar o santo dia, o tal dia do ano, em que se festeja o nascimento do menino Jesus, um menino como os outros, mas bem comportado, caridoso, sonhador – sonhava com um mundo melhor, certamente!,
E aqueles mails – estamos na era do computador (embora ainda haja quem envie cartões com anjos, velas, bombons e bonecos, tudo mesmo bonito, verdade seja dita, grande negócio também e ainda bem, sempre ganham alguns)... Aqueles mails, dizia eu, que vêm falar da festa da família, da reunião dos filhos e avós, dos tios da província e de alguns amigos solitários, “ah tanta gente, casa cheia, vou ter tanto trabalho, santo Deus, que grande chatice (diz-se em voz baixa), tantas compras para fazer, tantas prendas para embrulhar com fitinhas e tantos nomes para escrever em cada pacotinho ou pacotão, até chega a haver bicicletas e automóveis, com grandes laçarotes, livros e jogos, frigoríficos (o velho está a acabar), máquinas de café especiais, jóias baratas e caras, casaquinhos de malha e peúgas, cuequinhas de renda, caixinhas bonitas com preservativos, caixinhas de pó de arroz, perfumes baratuchos e carotes, CD e DVD, computadores, pianos, quadros, álbuns para vários serviços, caderninhos, caixas com lápis de cor, brinquedos dos mais diversos, sempre muitos, bonecas e casinhas, caminhas, lápis de cor, bolas para jogar no terraço, ou nos jardins, bolas de sabão, patins, sapatos de verniz, botas de salto alto, meias de lã, meias de seda com risca, à antiga, meias eróticas com rendas que colam, o pai Natal traz tudo no seu saco enorme, os meninos escrevem a pedir e os graúdos também.
O que é que eu pedi? ah, já sei, um penico de loiça, dá-me jeito, não me apetece ir de noite a casa de banho e um anel com um brilhante, porque não?, também sou gente, enfim também escrevi, como se deve, a pedir paz e fraternidade e essas coisas todas que um ser bem pensante e bem formado deve pedir.
Juro que nada tenho contra a festa natalícia, até a vou festejar com amigos, oferecer prendas, telefonar à família que está na cidade, eu estou no campo, embora no passado recente nos tivéssemos juntado muitos anos seguidos. Agora não dá muito jeito, embora os netos gostem sempre, ainda e sempre!
O problema é que fazem todos anos pelo Natal...também são quase meninos Jesus... e há que escolher entre aniversários e Natal, às vezes nem uma coisa nem outra, já me doem as costas para andar de cá para lá e de lá para cá...
Peru e bolo rei, sumos de tudo, vinhos brancos e tintos, champanhe, porque não?, arroz de pato e canja de galinha, bombons e mousse de chocolate, arroz doce e leite creme, salada de frutas – com manga e papaia, também – morangos com natas, iguarias sem fim. O menino pobre tem o nariz colado à vitrina de uma pastelaria qualquer – quadro típico da noite de natal, para fazer mal à nossa consciência – mas será que a temos? Claro que a temos, a consciência, canetas de marca e canetas sem marca, gatinhos e cãezinhos de peluche e verdadeiros, quer dizer, vivos, aquários com peixinhos ou gaiolas com passarinhos, vá lá não serem fritos..., como na taberna da minha infância, lá na Graça.
Muitas coisas, muitas coisas, muitas coisas. Será que o pai Natal pode trazer moradias? piscinas? campos de golfe? de ténis? cavalos e picadeiros? espingardas e bombas?
Estou a ser má, eu sei, ou irónica, coisa para nunca tive jeito, mas desculpem lá os meus leitores, bem me conhecem, só venho desejar um Feliz Natal, afinal!
Sítio da Cumeada, vésperas do Natal de 2009



