Bloguinho

Um sítio de encontros, virtualmente falando

1.2.10

A família cegonha


Por maria do mar
Gravura de Florbela Moreira


Oito da manhã, toca o telefone. - Problemas a esta hora, não!
É uma mensagem do meu filhote ”olá mami, have a nice day!” (era tudo o que eu queria ouvir, o meu dia vai ser fantástico). Não há nada a fazer, sou mãe galinha... dizem os meus amigos. Pois claro que sou, não faz mal, que eu saiba nunca ninguém morreu por ser amado, além de que só vejo os filhos aos fins-de-semana!
Estão a estudar… a trabalhar… são independentes. O que eu quero é que sejam felizes, mesmo que eu fique angustiada quando partem.
Partilho estes sentimentos com um casal de cegonhas que há pelo menos três anos escolheram um lugar bem juntinho à minha casa para erguerem o seu ninho. É um sítio estável, confortável, que eu posso admirar do meu terraço sempre que quero.
Desde que chegaram tem sido uma aventura, voam baixinho, quase me tocam, é vê-los carregar pauzinhos pequenos, troncos… Alguns são tão grandes, que parece que vão cair. Trabalharam dia e noite, ainda houve quem pela calada da noite tenha tentado destruir tudo, mas nada, nem ninguém, os conseguiu parar.
Era uma alegria e uma surpresa ver como aquela verdadeira obra de engenharia crescia a olhos largos tendo ficado pronta em poucas semanas.
Do meu terraço assisti ao namoro, vi quando se beijaram pela primeira vez. Fazendo barulhos estranhos com os bicos (deve ser um código de amor) beijavam-se…. beijavam-se, again, again, and again. Chocaram os ovos com todo o cuidado, nunca voavam os dois, ficava sempre um a vigiar, até que num dia lindo de sol, em bicos de pés, espreitei, espreitei e lá vi três cabecinhas lindas.
Vi-as crescer e quase chorei no dia em que voaram pela primeira vez, uma ternura a maneira como eram alimentados pelos pais e voavam sob o seu olhar atento, não para muito longe… Até que um dia partiram. Por uns dias, o casal ficou imóvel no seu ninho, como quem espera por alguém, mas depois voltaram à rotina.
Desde então, o ritual repete-se todos os anos e lá estão eles amando-se, beijando-se, ajeitando o ninho, voando... É comovente ver como fazem amor, equilibrando-se numa só perna, extraordinário, impossível de descrever. Só sei que tenho o privilégio de assistir a este espectáculo da natureza e pergunto-me se também esta mãe, a mãe Cegonha, fica deprimida e angustiada quando os filhos partem.
Mas afinal eles vão em busca do seu próprio ninho...

31.1.10

O conto


(escrito a pensar na Susana)

Por Guiomar Montalvo
Gravura de Miguel Vasques

Ah! O conto! Um conto!...
Quanto eu não daria para saber escrever um conto, minha amiga. Daqueles que obedecem à melhor técnica formal e substancial: bem estruturado e com um conteúdo apelativo, daqueles que nos agarram, prendem e deixam antever toda a trama nas entrelinhas.
E quanto mais pequeno melhor. Estou a pensar naquele conto, escrito em duas linhas, que talvez conheças, que tinha lá tudo e deixava margem para pensar no acessório e dar largas à imaginação. Era, mais ou menos, assim:
Quando ele soube que a mulher o tinha traído nada lhe disse, mas obrigou-a a colocar na mesa, todos os dias, à hora das refeições, um prato para o amante.
A mim, só me vêm à cabeça histórias simples, silogísticas, mas muito completas, isto é, com princípio meio e fim, e muito arrumadinhas...
A verdade é que gosto de escrever, com técnica ou sem técnica. E, por isso, vou tentar juntar palavras a palavras. Preciso é mesmo que as frases contenham ideias, que as ideias expressem sentimentos e que os sentimentos reflictam estados de alma: as alegrias ou as tristezas que em cada momento me possuem, me mobilizam ou paralisam.
E o certo é que me encontro, sempre, nos contos do meu entardecer. Aí as imagens fluem vivas e com a cor da memória selectiva das pessoas da minha idade. Só soa bem o que sai em jacto, torrencial, apanhado de surpresa numa gaveta, há muito fechada, que a vida em correria não deu tempo para abrir mais cedo. Cenas ou ideias apanhadas em flagrante, quanto menos se espera, a dizerem: agora eu!... Agora eu!...
São palavras que brotam cheias de novidade pelo desuso e que correspondem a um linguarejar de outro tempo e de outros lugares. Mas, para mim, surgem frescas, cheias de sentido, um sentido renovado e reinventado, às vezes desconstruído. E junto-as e percebo de onde vim, quem sou e onde estou e - quem sabe? - para onde vou!
Imagens vivas e garridas, ou mesmo a preto e branco, que muitas vezes nem precisam de retoque, trazem-me de volta ao mundo real que me viu nascer, às paisagens da minha infância e às pessoas que me fizeram festas e me ajudaram a crescer, pessoas que, aqui e ali, ainda hoje encontro e surpreendo, surpreendendo-me, já muito velhinhas, ou cujos traços e feições permanecem na geração seguinte, ou na outra, que não conheço, de todo, mas que me devolvem a um tempo outro e digo, com genuína alegria: Ah!...É a filha da tia fulana! Ou ainda: Está na cara, só pode ser neta de beltrana!
E reproduzo o gesto e a atitude da minha mãe, que tantas vezes observei, em idênticas situações, e dou-lhes um sentido abraço, cheio de saudades, como se não visse a fulana, ou a beltrana, há muitos anos e fossemos amigas, desde sempre.
E dou por mim a pensar que o apelo das raízes e da terra de pertença está presente em cada um de nós e é marca que nos fica e apazigua no entardecer da vida.

Lisboa.21.01.2010

As pedras


Por maria do mar
Gravura de Florbela Moreira

A idade não interessa, trinta, quarenta ou cinquenta por mim já decidi: vou ter vinte para sempre. Tenho tantas coisas para fazer que só assim terei tempo para tudo isso! Como andar de mão dada por Paris, de noite com o céu estrelado, ver o mar azul da Grécia, tornar a ver o sol nascer no deserto e muito, muito mais.
Durante a semana estou tão envolvida com os meus papéis, fruto da minha profissão, profissão essa que escolhi, gosto (só uma louca gosta de papéis), mas há entre nós uma relação muito interessante, diria amor/ódio, depende dos dias, contrasta na perfeição com os meus fins-de-semana
Desligo os telefones, dispo-me de executiva, e faço loucuras, passo a ser eu mesma. No domingo, vesti os meus jeans bem velhos, uma blusa simples, casaco de bombazina castanho com um cachecol cor de mel que comprei na Polónia, em Cracóvia, há alguns anos. Atei o cabelo por causa do vento e pus duas gotas do meu perfume preferido e, para terminar, calcei umas botas de borracha vermelhas com uns malmequeres que também já tenho há bastante tempo. Agora vejo-as nas montras das lojas chiques!!!
O C. olhou para mim… abriu os olhos …E…onde vais dessa maneira? Respondi-lhe: apanhar pedras, além de que podemos encontrar um lugar qualquer para petiscar.
Mas eu queria ir almoçar, disse ele, e eu, então e não almoças? Ou estás a pensar que não me deixam entrar com estas botas num restaurante?
O C. riu-se… estás linda…ficam-te a matar…Não liguei… nunca sei se fala a sério ou não, por isso…
A praia do barranco estava na minha lista já há algum tempo. É um lugar paradisíaco, a vegetação é selvagem e impenetrável e no sítio onde a agua que vem correndo no barranco se mistura com o mar nem tem explicação: o azul, o cheiro intenso de “o mar salgado” (bem perto, há um pastor com o seu rebanho e os cordeirinhos acabados de nascer quase não se seguram em pé, é enternecedor). Ao longe, vejo dois surfistas e dois cães sentados a olhar para eles, devem estar a vigiar os “donos”!
Sempre vigiada pelo pastor, entro no barranco e começo as escolher as minhas pedras, o que é uma tarefa difícil dada tanta beleza, há-as de todas as cores, desta vez quero tons de laranja.
Já cansada, sento-me. Só se houve o barulho das ondas misturado com o balido das ovelhas.
Estas pedras devem ter histórias sem fim, que terão elas presenciado ao longo de milhares de anos? Jangadas, canoas, navios, veleiros, batalhas de piratas, caravelas, de certeza muitas tempestades, violentas…será que alguém morreu aqui? Devem ter testemunhado crianças a brincar, felizes, rindo, ou mulheres chorando porque os seus maridos naufragaram! Velhinhos passeando, recordando o passado, pescadores, casais de apaixonados, beijando-se, fazendo juras de amor que, passados anos, se desfizeram como a espuma nas ondas do mar.
As pedras agora vão no cesto, tenho um lugar especial para elas no jardim, vão ser companheiras dos meus gatos.
Não dei pelo tempo passar, mal conseguimos encontrar qualquer coisa para comer, mas ainda nos fizeram uma sopa de peixe com poejos, uma delícia!
Escrevi na areia húmida … o que escrevi? Só eu sei….o C. estava já no carro, pronto para partir.
O que escrevi foi levado pela maré… essa frase ficará guardada eternamente no fundo do mar.
19.01.2010

Melancolia


Por Susana Ruth Vasques
Gravura de Miguel Vasques

Paira à tona da àgua/ Uma vibração, / Há uma vaga mágoa/ No meu coração. / Não é porque a brisa ou o que quer que seja/ Faça esta indecisa/ Vibração que adeja, / Nem é porque eu sinta/ Uma dor qualquer, / Minha alma é indistinta/ Não sabe o que quer. / É uma dor serena, / Sofre porque vê. / Tenho tanta pena! / Soubesse eu de quê!...”
Fernando Pessoa, Poesias

Às vezes dou por mim a perguntar o que fiz da minha vida, talvez desde o dia que minha mãe me deu à luz, lá em Lisboa, na maternidade onde nascem tantos bébés, até veio no Jornal: Na Maternidade Alfredo da Costa, Madame W. deu hoje à luz uma encantadora menina! Parabéns ao pai do bébé, Dr. W.
Alguns dias depois, a encantadora menina, que mais parecia uma boneca, tão pequenina era – minha mãe, quando me viu, exclamou: Este é uma boneca, onde está minha bebê, ela falava meio português, meio alemão, confundia os artigos - a Mutti da criança. Já as enfermeiras lhe tinham dito que era uma rapariga, aquela que trouxera no ventre 9 meses e que por um triz teria nascido na praia da Cruz Quebrada, onde o casal W. vivia, desde que fugira da Alemanha nazi.
A Velha Maria, minha ama a partir desse dia, embalava-me nos braços – contaram-me, não me lembro, embevecida cantava: Faz ó ó, minha Susaninha, faz ó ó... Estranhamente, esta cantilena ainda me soa na memória dos ouvidos. Ah, acabo de descobrir que, talvez por causa dessa memória, eu embalava o meu primeiro neto, cantarolando: Ó ó, bébé da avó! E João adormecia, ainda às vezes dou por mim a cantarolar-lhe esta “balada”, hoje, 21 anos depois de ter nascido!
Se eu era encantadora menina, não sei, mas dizem que toda a gente na rua olhava para mim e para meu pai, ou minha mãe, conforme quem me levasse a passear, paravam e faziam comentários sobre a minha graça!...
A certa altura, muito próximo do meu nascimento, apareceu na minha vida mais uma personagem, duas a bem dizer: minha ama-de-leite e sua filha Deolinda, ambas mamávamos de sua mãe, Clementina, se bem me lembro do nome. Deolinda morreu próximo dos 20 anos, no desabamento do telhado da estação de comboios do Cais do Sodré.
Ambas tínhamos brincado com minha irmã de leite, também Susana e meu irmão Rui, nascido 4 anos depois de mim, nas trazeiras da padaria do pai de Deolinda, que nos dava pão acabado de saír do forno, que devorávamos.
Fomos crescendo, companheiras de escola, eu usava o cabelo à Beatriz Costa, tal e qual, diziam as pessoas. De tão negro que era, até tinha reflexos azuis, como os corvos.
O meu cão Jonny, lindo de morrer, lulu branco, sentava-se à porta da casa de banho, enquanto eu me lavava, para não deixar o Rui Miguel espreitar.
O Jonny morreu atropelado e eu nunca mais me aproximei muito de cães, embora minha mãe tivesse sempre um em seu regaço...
Lembro-me de grandes passeios de bicicleta, que fazia com meu pai, aos fins-de-semana.
Lembro-me de minha mãe me tricotar vestidos, um era verde e tinha bailarinas às cores, na orla. Talvez por isso, comecei a ter aulas de bailado aos três anos e a fazer pontas!
Com a D. Clotilde, tocava piano, mas não falava francês...
Seu filho António, gordo como tudo, gostava de mim, mas eu não gostava dele, se não como amigo, ele olhava-me amorosamente e corria para me abrir a porta, assim que eu tocava à campaínha. A mãe de D. Clotilde dáva-nos um bom lanche, pão com manteiga e cacau. Às vezes, o Rui ia comigo e jogava à bola com o Antoninho.
Certo dia, depois do exame da quarta classe, com a querida D.Ilda do carrapito, mudámo-nos para a Graça. Nessa noite dormi com meus pais, disseram que o meu quarto estava em obras, mas de manhãzinha acordei numa cama cor-de-rosa, rodeada de móveis da mesma cor, numa quarto esconço, que adorei. Era a minha mansão de princesa, até a colcha era cor-de-rosa, com malmequeres e eu punha-a à volta dos meus ombros, para ordenar ao meu escudeiro, Rui Miguel, que chamasse a carruagem, puxada a dois alazões soberbos. Deixava meu irmão conduzir, ele tinha jeito e lá íamos nós, mundo fora.
Talvez por isso, somos, ainda hoje, viandantes...
Cresci, enamorei-me aos 10 anos, o meu apaixonado acabou por emigrar para o Brasil, como se deve nos contos de princesas, em que entra uma fada invejosa da felicidade alheia. Há sempre (que las hay, hay)...
No Liceu tive várias paixões, sou uma mulher apaixonada e romântica!
Casei com o meu professor de filosofia, fui feliz e infeliz, separei-me ao cabo de 17 anos, tinha a minha lindérrima filha, essa sim, uma autêntica princesa de contos infantis, 12 anos.
Novas paixões e por aí fora. Voltei a casar com 50 anos, já o meu neto mais velho tinha nascido.
Depois veio o Miguel, cinco anos depois do João, Miguel lhe chamámos, como seu tio (Rui) Miguel. Em vez de ir para a creche, ficou em nossa casa até aos oito meses. Brincava no escritório do R., seu padrinho simbólico, enquanto este escrevia livros para adultos e adultos prodígios (crianças) e lhe contava histórias das mil e uma noites... Foi o R. que, mais tarde, lhe ensinou a pintar e até fizeram juntos uma exposição na SPA, com lucros divididos ao meio! Claro que o Mico vendeu todos os seus quadros! Na véspera da expo, perguntou ao padrinho: E se tu morreres antes do dia da inauguração, o que faço? - Fazes na mesma e ficas com o lucro todo!
E eu? A Susaninha da Maria Velha?
Eu? Trabalhava como jornalista, escrevia crónicas, escrevia Diários, continuava a viajar pelo mundo fora e era feliz e infeliz, como toda a gente!
Um dia, passados vinte e tal anos, comprei uma casa no Algarve e fui viver com um alemão, coisas, provávelmente, do meu passado ancestral.
Sou feliz? Sou infeliz? Como sempre e toda a gente, sou ambas coisas, mas às vezes dou por mim a pensar o que fiz da vida, se errei, se acertei, quantas vezes errei, quantas acertei, na verdade não sei responder ao certo! Terei dupla personalidade? Tripla, quádrupla? Terei sido andorinha numa vida anterior? Às vezes dou por mim a pensar: Susaninha, Susaninha, achas que não te magoaste demais na vida, achas que não magoaste demais os que te amavam? Não sei. Por não saber, choro às vezes, feita menina sem mãe, sem Mutti, sem pai, sem Papi, apesar de lá, nas Alemanhas cheias de brumas, na pátria de Wagner, o Rui Miguel ainda velar por mim, mas quero crer que também já está um pouco fatigado da vida, do trabalho, das emoções, das paixões, das uniões e desuniões, tal como eu...sua única irmã, portanto, a favorita! Desta feita, foi ele que emigrou, há muitos anos, para a pátria de nossos pais.
Chamo a este estado da minha alma melancolia...
Cumeada, 20 de Janeiro 2010

Conto de Natal

O Menino Jêsui

Por Guiomar Montalvo
Gravura de Florbela Moreira

Era um homem empedernido, com olhos de águia e nariz adunco. Teimoso, caprichoso, rude e maldizente.
Era um solteirão inveterado, centrado em si, para quem as mulheres tinham a função de servir, servir os homens sem receber nada em troca, nem um sorriso ou um agradecimento. A ele, era a mana Balbina, com quem vivia paredes-meias, quem lhe lavava a roupa, preparava as refeições e pouco mais, sempre e só a pedido, pois não admitia intromissões na sua vida.
Assustava os que dele se abeiravam com gestos cordiais. Nunca retribuía um sorriso ou expressava um gesto acolhedor. Quanto mais envelhecia mais se isolava e se tornava amargo.
Um dia, torceu um pé, caiu, partiu uma perna e feriu-se na cabeça, ao bater contra a rocha onde se escondia o safio que pescava.
Ficou imobilizado e totalmente dependente, mas nem por isso melhorou a sua relação com aqueles que se atreviam a bater-lhe à porta oferecendo os seus préstimos. A irmã, única pessoa da família que lhe restava, era maltratada e sentia-se incapaz de cuidar dele, esperando que adormecesse para lhe deixar o leite e a água à cabeceira, os únicos alimentos que ainda aceitava. Achava que era chegada a sua hora.
Numa ocasião, Balbina, sentindo-o muito agitado, mal disposto e com alucinações, e temendo que atentasse contra a própria vida, resolveu esconder-se atrás da porta e observá-lo.
E, qual não foi o seu espanto quando, no silêncio do quarto, começou a ouvir a voz angustiada do irmão que, numa prece fervorosa, se dirigia a Deus, de joelhos, implorando que se mostrasse e lhe indicasse o caminho que deveria seguir.
Curiosa e atónita com tamanha e inesperada devoção escutou esta oração:

Mostra-Te, meu Deus, a quem recorro em desespero, pedindo ajuda e Amor!
Dá-me um sinal da Tua presença, para Te abraçar!
Prometo olhar e ver-Te, sorrir e acolher-Te com todo o Amor que guardo ainda no coração! Prometo!...Prometo!...

Então, lentamente e como que impelida por uma estranha força, saiu de trás da porta, pousou-lhe ambas as mãos sobre a cabeça e encostou o seu peito ao rosto dele lavado em lágrimas.
Enquanto isto, estranhas imagens se sucederam na sua mente e, de repente, viu-se menina a pegar na mão do mano, uma criança muito pequena, meiga e dócil, loira e de olhos cor de avelã, que a mãe pegava ao colo e consolava, quando perdeu o cão, seu companheiro de brincadeiras, abatido a tiro, por caçador incauto; depois, reviveu o pesadelo maior e viu-o agarrado ao casaco da mãe, dias a fio, aguardando que regressasse, enquanto ela, também criança, lhe afagava os cabelos, para o acalmar. Longo foi o percurso e o afastamento, a partir de então…
E agora, o quadro era outro, bem diferente!
Ali estavam dois velhos, que mal se conheciam nos afectos: ela a acariciar-lhe o cabelo grisalho, buscando o gesto certo e a palavra adequada, para não o exasperar; ele soluçando e a tremer, perdido em busca de colo que o embalasse.
Apercebendo-se do abandono a que se entregara, atreveu-se a sussurrar-lhe ao ouvido:

- Estou aqui! Estou aqui para te ajudar, com todo o amor do meu coração. De mãos dadas acharás o caminho que procuras. Olha para mim, sorri e acolhe-me sem medo. Eu estou aqui à tua espera, menino Jêsui! Meu menino Jêsui!...
- Jesuíno estremeceu, agarrou-se à irmã, esbugalhou os olhos, sem ver, e balbuciou:
- Menino Jêsui?!… Menino Jêsui?!...
E, mais calmo, de olhos semicerrados, continuou a falar:
- Meu Deus!... Obrigado meu Deus, porque me deste o sinal que te pedi! Estás comigo…Eu que julguei ter-Te perdido, há tanto tempo!
-Tratas-me como a mãe sempre me tratou, imitando o meu padrinho, no seu falar carioca, que me achava parecido com o teu Filho, nascido em Belém e, por isso, baptizou-me com o nome do meu avô, mas sempre me tratou pelo nome do Filho de Deus. Sempre, até que morreu naquele acidente, que roubou a vida também aos meus pais. E fiquei perdido e sozinho…Tu sabes…E nunca mais me encontrei… Até hoje, quando respondeste à minha prece!
- E agora, só quero que fiques a meu lado! Quero ouvir que me tratem por Menino Jêsui…Prometo olhar, sorrir e voltar a amar.
E distendeu-se sobre a cama, abrindo muito os olhos, como que a acordar e a reencontrar-se.
Então, encarando a irmã, perguntou-lhe, com admiração:
-Tu que viste, Babi? Assististe a esta cena?
E, perante o seu acenar de cabeça, acrescentou:
- Olha! Ele reconheceu-me e tratou-me por Menino Jêsui! Gostei, mas fiquei um pouco confuso e envergonhado. Já sou um homem, quase um velho, minha Babi!
- Queres ajudar-me a olhar o Mundo com esperança e a dar testemunho do milagre que vivi e presenciaste?
A irmã sorriu, estendeu-lhe a mão e respondeu:
- Claro que sim! Ele, antes de sair, pediu-me que o fizesse! É por isso que aqui estou!
- Anda! Vem! Vamos celebrar o Natal!...

Lisboa. Dezembro de 2009

30.1.10

Terapia de sábado


Por maria do mar
Gravura de Miguel Vasques

Ir ao mercado de rua ao sábado, o cheiro a farturas, o homem das castanhas, com o frio os homens esfregam as mãos para aquecer, então não tem luvas? Qual luvas menina, nem pensar, um homem do campo não usa disso. È um reboliço, pessoas para cá e para lá. Menina, menina, ovos como os meus não vai encontrar, as minhas galinhas só comem milho e andam soltas. Mais à frente, não precisa de limões? Este mel é uma delícia, se visse o meu marido no dia que o tirou da colmeia! … ainda apanhou umas boas picadas.
Uma senhora pede-me dois euros por um molho de flores campestres, o quê, dois quê… isso não pode ser, não se enganou? Logo compro na semana que vem. Numa banca há uns tomates lindíssimos, são espanhóis? Se são, não quero. Menina, como é que eu ia a Espanha? No meu burro… o mais longe que fui foi a Lisboa, porque estive doente e não parava de falar. Quase não consigo andar, isto é como atravessar o deserto… vou encontrando pessoas conhecidas. Olá… há tanto tempo não a via… depois… está na mesma, na semana que vem vou ao seu escritório, está bem. Finalmente avisto as couves-flor e o pão caseiro que quero comprar, passo junto aos coelhos e galinhas que estão dentro de umas grades, não gosto, pobres animais, deviam andar no campo a correr.
Uff…Uff… finalmente já tenho o que preciso e posso sentar-me, tomar um chá, cidreira por favor, o cheiro de cidreira é bom, gosto de cheiros, gostava de ter partilhado os cheiros das frutas com os meus filhos, mas já nada cheira como antigamente.
Lembro-me quando passeava ao colo do meu pai pelo campo, o cheiro das ameixas, os pêssegos, as nêsperas, a luta constante que ele tinha com uns pássaros que teimavam em lhe comer os figos, uns figos pretos deliciosos, fico com água na boca só de pensar, agora temos uvas da Nova Zelândia, Brasil, laranjas de Espanha, completamente ridículo, as laranjas do Algarve são as melhores do mundo!
Pai, os pissalinhos comem os figos? Poquê? perguntava eu aí com uns cinco aninhos.
No regresso o meu pai, sempre falando e comigo ao colo, apanhava só para mim a tangerina maior e mais linda que a árvore tinha. Eu abraçava-me a ela com toda a força possível, não fosse ela escorregar por entre as minhas mãos tão pequeninas.
Acabo o chá quase sem dar por isso, estava noutra dimensão.
Hoje é dia de almoçar mais tarde. Os vendedores começam a guardar o que sobrou e voltam para casa, vida dura no campo mas têm um sorriso na cara, parecem felizes à sua maneira.
Um homem que só já tem uma alface no cesto diz-me: Madame, leve, esta é a ultima, faço um preço especial (acha-me com cara de Madame!), está bem, levo a alface, não vou ter coragem de comê-la…. parece sorrir para mim… obrigada, obrigada.
Olá, olá, viro a cara e dou com os olhos no homem do berbigão, só faltava este para completar a manhã de sábado, vem de Alvor, diz que tem clientes certos aqui na cidade, são de confiança, menina, pode lavar e comer, não têm areia. Quando dou por mim, já tenho um litro de berbigão na mão!
Ponho-os junto à alface e corro para casa, vou cozinhá-los com coentros e alhos.

28.1.10

Os contos da avó Gui

(Para o Francisco ainda antes de nascer)

Por Guiomar Montalvo
Gravura de Miguel Vasques

A Galinha Pedrês
e os direitos dos galináceos



A Galinha Pedrês vestida de preto e branco esgaravatava na terra ao redor da árvore que lhe dava sombra, no quintal da Dona.
Distraída, ia cacarejando e comendo as minhocas que encontrava, aqui e ali, acompanhadas de uns granitos de areia, que sempre ajudavam a digestão e fortaleciam as cascas dos ovos.
Sim! Porque a Galinha Pedrês punha todos os dias um ovo no ninho que ajeitara na capoeira, na esperança de ter filhos – os seus pintainhos!
Mas isto nunca aconteceria, porque a Dona sempre lhe levava os ovos… Disso, ela tinha a certeza!
De todo o modo, sonhava que havia ainda de ter filhos. Imaginava uma grande ninhada atrás dela e, à noite, todos aconchegados debaixo das suas asas protectoras, para dormirem, bem quentinhos.
E, pensando nas chocadeiras eléctricas que aqueciam os ovos e lhe negavam, a ela e às outras galinhas, o direito de serem mães, de verdade, e de cuidarem dos seus meninos, a Galinha Pedrês esgaravatava frenética a terra que tinha debaixo das patas.
Enquanto isto, o Galo Ruivo, altaneiro e vaidoso, passeava no quintal da Dona, com ar desportista e todo pimpão.
De crista encarnada e muito emproado, alçava as penas do rabo, que mais parecia um espanador cor de fogo, mesclado de verde e castanho.
Então, ao ver a Galinha Pedrês, abeirou-se dela, arrastou a asa direita e os dois galináceos olharam-se e sorriram com enlevo e cumplicidade. E logo ali, estabeleceram, entre eles, um diálogo que ninguém percebeu.
De repente, o Galo Ruivo encheu o peito de ar e cantou: Có-có-ró-có… Có-có-ró-có-có!...
A Galinha Pedrês, essa, piou mais fino, tão fino que mal se ouviu. Mas toda a capoeira sentiu a sua agitação.
Sacudindo o corpo, as penas estremeceram alvoroçadas e espalharam os restos de areia que saboreara.
Depois, agachou-se sobre as patas deixando atrás dela o presente que sempre oferecia à árvore que a acolhia, limpou o bico debaixo da asa e, olhando o Galo Ruivo de soslaio, caminhou a seu lado para a zona escura do quintal, por entre o arvoredo, cacarejando baixinho e doidejando.
Nessa noite, nem a Galinha Pedrês nem o Galo Ruivo voltaram à capoeira.
A Dona só voltou a vê-los muito tempo depois rodeados de muitos filhos – os seus pintainhos.
Chegaram em bando. Eram muitos e faziam muito barulho, no seu cacarejar.
O Galo Ruivo tomava a dianteira e vinha ainda mais altaneiro e com as penas mais sedosas e brilhantes. Os esporões estavam afiados e trazia consigo um estandarte com palavras de ordem, exigindo poder para os galináceos.
A Galinha Pedrês, essa, sacudia as asas e o rabo e reclamava o direito a pôr ovos e a ter os seus próprios filhos fora das incubadoras. Enfim, o direito a ser uma mãe realizada e feliz.
A confusão instalou-se.
A Dona não sabia o que fazer e caminhava apressada, em largos passos, de um lado para o outro.
Ora, reclamava ovos para fazer bolos, para dar aos netos, ora dizia que queria fazer canja de galinha.
Depois, pensava no galo de cabidela, nos miúdos de frango, no frango no espeto, ou no churrasco, tudo do agrado de toda a família...
Enfim, gesticulava e gritava que também tinha os seus direitos.
No meio da algazarra um pintainho minúsculo e amarelo, cor de gema de ovo, tão fofo como uma bolinha de pelo, levantou-se, pediu licença para entrar no banzé e, simplesmente, pediu tréguas.
Depois, no seu piu-piu, dirigiu-se aos presentes, com ar de grande sabichão, e falou sobre o mistério que o seu próprio nascimento encerrava, perguntando se sabiam quem teria nascido primeiro: o ovo ou a galinha?
Finalmente, opinou que qualquer decisão teria de ter em conta os interesses de toda a criação.
A Dona, que o escutava enternecida, pensou logo na obra de Deus e nas suas criaturas.
E murmurou, para consigo, que aquele não era um pinto tonto qualquer e que o melhor era, mesmo, ser sua aliada. Afinal de contas, aquele discurso também a incluía …
Então, aplaudiu muito a intervenção do filho mais novo da Galinha Pedrês e propôs que, ali mesmo, se assinasse um documento dirigido às autoridades, pedindo que fosse reconhecido poder aos galináceos para decidirem do seu próprio destino.
Defendeu, por achar justo, que lhes fosse dedicado um dia do ano, para os lembrar e celebrar. Tudo, como devia ser!
Opinou, até, que lhes deveria ser prestada assistência médica preventiva, para evitar as gripes traiçoeiras e, às vezes, fatais…
Toda a bicharada ali reunida bateu as asas e cacarejou muito contente: Có-có-ró-có! … Có-có-ró-có-có!... có-có-ró-có-có!...
Foi um dia histórico para a criação da quinta da Dona…
E para a própria, nem se fala! Ali se reconheceu como a grande líder da bicharada, na esperança de ser recompensada, está bom de ver!
Verdade, verdadinha, é que a Dona já se imaginava a fazer bolinhos para os netos com os ovos da próxima postura da Galinha Pedrês...

Lisboa, 22 de Julho de 2006

18.1.10

No mar da Palha


Por maria do mar

Gravura de Florbela Moreira


As nuvens essas não param, quando eu era pequenina a minha avó dizia-me que iam buscar mais água, e eu pensava mas como, se não têm baldes...?
Queres sobremesa? Desculpa, nem te ouvi, só quero café, uma bica bem cheia. Oh, assustei-me, é que a chuva parou por momentos e vieram três passarinhos beber numa pocinha no chão mesmo junto à janela onde me encontro. Ninguém dá por nada, para onde é que as pessoas olham?
Estava tão longe... Como será voar? O mar bate agora com mais força, entretanto a maré está mais cheia e está a bater numa rocha fazendo espuma, um homem com um casaco enorme... só se lhe via o nariz, passeava o cão e ficou molhado, de que te estás a rir? Nada, nada. Tenho medo de estar a sonhar, que isto não seja real. Já conheço este local, sempre que posso volto cá.
Hoje dia dez de Janeiro


Chove desde ontem.
Fico indecisa entre ficar em casa ou ir ver o mar, que nestes dias tem uma beleza diferente. Aqui estou, juntinho às vidraças, perto da areia, para não perder nada, para que os meus olhos possam ver tudo...
Queres caldeirada de lulas? Eu nem pensar, por mim nem comia...mas quero peixe grelhado com legumes.
Bastava-me este espectáculo maravilhoso, está mesmo na minha frente, é meu, é como estar no cinema. Lindo, imenso, bravo, revolto, é assim que está hoje. E as cores? Vai do cinzento ao branco sujo, e por vezes esverdeado mas bem escuro, parece os olhos do meu filho. Fabuloso!
Perco-me com as gaivotas, é como se bailassem, ou jogassem ao toca-e-foge...
Umas não se deixam tocar pela onda, outras simplesmente voam, mas parecem tão frágeis; como conseguem?
Acho que algumas deixam-se levar. Ah! como eu gostava de me descalçar e ir correr e dançar com elas, mas está muito frio. Chove mais agora, com mais força, não se percebe onde acaba o mar e começa a chuva.

À mesa do café


Por Susana Ruth Vasques

Fotografia de Miguel Vasques


“ (...) mas o café é também o local de observação: estou a oberservá-la, embora não com os olhos, mas como uma esferográfica, uma esferográfica azul, cilíndrica, macia, a observá-la e a procurar adivinhar quem ela é (ela, mulher súbitamente desconhecida; letra a letra se esclarecendo enquanto estas páginas se escurecem (...)”
(Augusto Abelaira in “Bolor”, Bertrand, 1968, pag. 14)

Sempre a mesma coisa, quer dizer, muitas vezes, estou à mesa de um café a ouvir conversas alheias, nem dou por isso, juro que não é por bisbilhotice, já disse, dou por mim a ouvir, mas é por amor!
Sim, por amor... Quereria dizer a minha opinião, dar uma achega, já houve vezes que me meti na conversa, deu resultado... arranjei amigas!
Eu até arranjei uma amiga num vôo Lisboa-Luxemburgo: uma senhora a meu lado e eu começámos a conversar, nem me lembro do que contámos uma à outra. Ela ia, creio, em viagem de trabalho, eu em viagem de paixão! Ia ter com um namorado...
No Natal a seguir trocámos, bem-educadas, as Boas Festas. Mas, certamente, não foi só por boa educação... Ela chegou a convidar-me a ir tomar chá às tias de S. Bento. Nunca fui. Falta de tempo? Nem sei... A senhora era uma pessoa interessante, a conversa agradou-me, mas sabemos lá porque não fazemos certas coisas, ou porque as fazemos?
Não fui. Continuámos a mandar Boas Festas, até que perdi o telemóvel e o contacto dela, que tentei através do local de trabalho, um sítio importante, na Capital, mas não consegui!
Este ano, mandou-me outra vez, após um interregno e eu aproveitei para perguntar o seu mail, que enviou. Assim começou, nas nossas vidas, de reformadas, eu há muito, ela há pouco, eu avó de netos adolescentes, ela avó de crianças, uma amizade através deste meio de comunicaçao a que se chama computador! Mais rápido, embora menos atractivo do que as antigas cartas seladas com selos que escolhíamos. Salvo uma amiga, uma Poeta e escritora conhecida, que se recusa a escrever por mail, é à mão, escolhe o selo! Letra bonita, inclinada, mas não conseguindo perceber, passou a imprimir, após a escrever no famigerado computador!
Bem, desviei-me totalmente da conversa à mesa do café, já é meu hábito, dou voltas e reviravoltas, é como em casa...
- Imagina tu, que a Joselinda (nome inventado por mim), recém casada, me confessou, a chorar, que embora fôsse virgem, não deitou sangue e o marido insultou-a e chamou-lhe de vigarista e pior de puta! Tás a ver-me isto, em pleno século XXI?
- E tu? Eu perguntei-lhe se sabia porque não sangrou, ela inocente: sei lá, amiga, sei lá bem, porque Deus Nosso Senhor me pregou esta partida. Juro-te pela Virgem Maria que nunca tive homem antes de casar. Tu bem me conheces, foi o meu primeiro namorado.
- Não tenho a certeza, Joselinda, mas acho que aquela pele que temos cá dentro, ou se rompe com a penetração e deita sangue, ou não se rompe e então não deita, mas porquê, não me perguntes.Mas que já ouvi, ouvi.
Não resisti e meti-me à conversa: vocês desculpem, ouvi-vos sem querer..., eu sei disso, porque trabalhei há muitos anos na Comissão da Condição Feminina, escrevia para uma antiga revista chamada Crónica Feminina, que nem sei se ainda existe, assim como para o Modas e Bordados e o Jornal do Fundão, numa coluna intitulada Planeamento Familiar, em que muitas mulheres me escreviam, entre muitos assuntos, sobre a primeira vez em que tinham feito amor e juravam-me por Deus que eram virgens, mas por não terem sangrado, os namorados, ou, pior, os maridos ainda as insultavam 30 anos depois!
Lá explicava eu do que se tratava, tão simples, algo da natureza, que se devia aprender na escola e que os pais deviam ensinar aos filhos, bem nesse tempo não havia educação sexual na escola, agora há, espero que não se esqueçam deste assunto fundamental na vida de um casal, seja um par de namorados que fazem amor pela primeira vez, seja um par que se casa!
Mas o que é afinal, peguntaram à uma as jovens da mesa ao lado.


“Não há mulher que não tenha fantasiado com a perda da sua virgindade. Geralmente, estes sonhos vinham acompanhados de pétalas de rosa, velas, romantismo...e o medo de sentir dor. Sangrar, então, foi por muito tempo considerado obrigatório na noite de núpcias, com o risco de anulação do casamento caso a mulher não manchasse o lençol. O que muitos não sabiam àquela época é que algumas mulheres nunca sangrarão na primeira relação sexual – nem perderão o hímen com uma vida sexual ativa. “O hímen é uma membrana que envolve a entrada da vagina e apresenta um orifício, por onde sai a menstruação”, explica a ginecologista Carolina Carvalho. Esta membrana geralmente é rompida na primeira relação sexual e, por ser irrigada por pequenos vasinhos, faz sangrar. “No caso do hímen complacente, ele é elástico e não se rompe com a relação sexual”, completa a médica.

São poucas as mulheres que apresentam este tipo de hímen. “Não há uma porcentagem porque não é uma patologia, é só uma diferença anatômica, como ser loira ou morena”, conta Carolina. Sendo assim, não é doença apresentar este tipo de hímen. A recomendação para a retirada cirúrgica dele é no caso de haver dor durante o sexo. Naturalmente, o complacente só se rompe durante o parto normal, já que a pressão na área é bem maior do que durante a penetração(...)”.
Esta “explicação” que lhes dei, dita por palavras minhas, enquanto pedíamos mais uma bica e eu me passava para a mesa delas, trouxe brilho aos seus olhos e N., a empregada, minha amiga, também se pôs a ouvir! Disse até: eu sabia disso e ainda bem, sabem, porque também não sangrei e o meu marido já se estava a aprontar para me chatear! Sabem o que lhe disse? Que era um ignorante e tinha sorte de ter encontrado uma mulher culta como eu, riu-se às gargalhadas, a patroa até lhe lançou um olhar, certamente pior do que o do então noivo de N.
- Pois é, passamos cada uma, já vamos sossegar a Joselinda e o marido, a ver se ele compreende, às vezes os homens julgam que estamos a pregar-lhes pêtas!
Digam aos dois que procurem na Net, vem tudo explicado, eu também não sou nenhuma sábia; riram-se, os tempos são outros, embora haja ainda muita ignorância, rematei.
Afinal foi bom a senhora ouvir a nossa conversa, disse uma das amigas de Joselinda, com ar malicioso! Ainda por cima se escreve... Inspira-se em conversas, é? – acrescentou a outra!
E assim ficámos amigas e passámos a tomar a bica da manhã juntas, enquanto trocávamos ideias, livros, CD e DVD, revistas e, sobretudo, amizade!
A Joselinda e o marido vieram um dia convidar o grupo, incluindo a N. a lanchar.
- Lá em casa, acrescentou tímidamente, certamente por minha causa, uma desconhecida...
A futura mãe, estava grávida esta mulher que, a ter um parto normal, poderia enfim romper o hímen de forma a não ter mais nenhuma dor durante o amor, “às vezes ainda me dói um bocado, mas desde que sabe do tal hímen complacente, é mais carinhoso e cuidadoso e não vai à força, entende”, segredou-me vermelha que nem um pimentão.
Simpático casal. Se tiverem uma menina chamar-se-á Adriana, se fôr um menino Miguel! Querem ter a surpresa! As madrinhas são as duas amigas, queriam que fôsse eu!
Não, sinto-me honrada, mas já tenho afilhadas que cheguem, é uma grande responsabilidade e acho que as vossas amigas é que são as pessoas indicadas!


Assim terminou mais uma história de conversas em redor de uma chávena de café...
que dedico à G.M.
Cumeada, 18 Janeiro 2010

9.1.10

Silêncio


Por Hortense de Almeida
Gravura de Florbela Moreira
Irmã de sonho fui... deixei de o ser...
já não o sou!

Fui criança... fui jovem... vi passar os anos...
depois encontrei a velhice em meu caminho
e fui forçada a seguir-lhe os passos.
Agora prisioneira do seu querer
à deriva navego no mar alto
e sem bússola... sem remos... e sem leme
mais não sou do que um náufrago lentamente a afundar-se!

Perdida de mim própria tacteio sombras
e já não sei quem fui... o que fiz... o que queria fazer...
e já não faço.

Diante do espelho não me reconheço
e quando no cofre-forte das recordações eu me procuro
há sempre uma voz misteriosa que me diz:
O passado passou.. . e dele nada resta!

Será possível? Tudo morreu? Tudo acabou?
Será que nada resta de quando em tempos idos
em nuvens róseas eu pousei os pés?
Queria tanto saber da minha harpa:
Em que recanto está? Ninguém a viu? Ninguém?
Ninguém nas ruínas de mim própria já a encontra?

Boa noite vida! As luzes se apagaram...
e eu tenho sono... quero dormir... é tarde...
é muito tarde... quero fechar os olhos docemente...
e como antes e nascer voltar ao nada!
Linda-a-Velha, Maio de 2008

Falavam ao telefone…


(…) La semaine s´achève. Mersault a bien travaillé. C´est samedi, il retrouve Marie. Ils prennent le bus pour aller à la plage située à quelques kilomètres d´Alger. Le soleil ; l´eau, le goût du sel, et les jeux amoureux dans les vagues : sa langue rafraîchissait mes lèvres et nous nous sommes roulés dans les vagues pendant un moment (…)
(Albert Camus in L´Étranger, 1942)

Por Susana Ruth Vasques
Gravura de Miguel Vasques

Falavam ao telefone, cruzavam mails, às vezes ele zangava-se forte e feio e ela chorava. Chorona, chorona, diziam as coleguinhas da escola primária, mas não era a ela que chamavam assim, era à Rosalinda, coitada da Rosalinda, chorava por dá cá aquela palha, não tinha mãe, ninguém sabia o segredo do desaparecimento da senhora, provavelmente morrera de parto e a família escondia esse facto natural da vida, da menina. Havia quem dissesse que fugira para um convento, mas ninguém explicava a razão.
O certo é que Rosalinda chorava por tudo e por nada.
Não era à mulher que falava ao telefone, que as coleguinhas de outrora chamavam de chorona, só que ela lembrava-se da infeliz, sempre que se sentia também infeliz e um rio lhe saltava dos olhos e do coração – core ´ngrato – Pavarotti?, quando o homem, por mail, ou ao telefone, se zangava, provavelmente tinha razões para isso.
Uma vez, no entanto, ela resolveu também zangar-se e perdeu a cabeça, desligou e chorou o tempo de uma noite de lua cheia. "Lua Cheia/ Desliga o Farol/ Namora Comigo/ à Espera do Sol/ Tira a Roupa/ Prum Banho de Mar/ É Pele na Pele/ Desejo no Olhar (...)"
Foi assim: muitos meses não se falaram mais. Um dia ele telefonou e disse : sou eu, ela respondeu: ah, eu sei! Já não eram novos. Conheciam-se há meio século, provavelmente amavam-se, tinham-se amado, olha, não ouvi bem.
A conversa passava-se no cabeleireiro, entre a dona e uma cliente ruiva, que fazia madeixas azuis! Falavam tão alto que toda a gente ouvia.
Eu gosto de ouvir estas histórias sobre os outros, talvez ande sempre à procura de material para escrever. E então sobre amores e desamores...amantes, ladrões, diamantes, lampiões...
Como continua a história, perguntou uma senhora sentada na cadeira ao lado, que parecia distraída a escolher um verniz verde para as unhas?
Você saiu-me cá uma bisbilhoteira, disse-lhe a manicure-pedicure-tiredents, tiradentes, Minas Gerais, tratava a cliente por você, não se usa lá muito, a mim por Mádáme, a Mádáme tem uns cabelos lindos, criteriosos, (eu?, que quererá ela dizer com tão criteriosa palavra acerca de uma cabeleira)?, pau-de-cabeleira, amendoeira, nespereira, bananeira, na eira, cerejeira (ontem o Google que todos os dias muda de ilustração, é só ter atenção, eu nunca tinha reparado até o homem que fala ao telefone me dizer)!, ontem, precisamente, havia cerejas (na barra do dito G.) e caía uma como se fosse da árvore para o chão, Les Cerisiers roses et Pommiers blancs, Tino Rossi , de cada vez que eu ia à procura de algo no Google, por exemplo, uma canção forró, Lua Cheia, ou core `ngrato, ou Estação das Letras, cursos de Verão, Rio de Janeiro, “O que será que será escrever?”, curioso, hoje o G. não tem ilustração, ou eu não vejo bem, está escuro, chove sem parar, Belém do Pará, adoro ouvir chover, as gotas de água, Agua Viva, Gal Costa, Olhos Verdes, Vida de Artista, a tamborilarem, como dizem alguns poetas, talvez não os Poetas, tamboril, arroz de tamboril para dois, nas vidraças das janelas (onde é que havia de ser)?, contra as portadas de madeira queimada pelo sal da praia, qual praia, a do Camus em L´Étranger, a de Hammamet, comparada à de St.Tropez, parou de chover, as nuvens ficaram cor de fogo e o verde das árvores mais verde, então, lembra a cliente, não conta o resto?
Qual resto, perguntou a cabeleireira, ao telefone com uma amiga, numa grande conversa sobre gatos, o teu gato, não o meu, o veterinário disse, não a minha acha...
A história do tal casal que se falava por telefone, lembrei.
Casal? Qual casal? Ah, sim, já sei, ele emigrou e ela desapareceu para sempre, ninguém sabe onde está, nem para onde foi, pensam que se retirou para um convento! Dizem que estava cansada e num convento tinha casa, comida e roupa lavada, era hóspede, não tinha de rezar, nada, só dormir, comer, passear, ler e ouvir música.
Bela vida, comentou a Caixeira não Viajante!
Paguei a conta e saí para o ar livre, o ar livre, o ar não é sempre livre, perguntou uma vez um menino a sua mãe?
Sítio da Cumeada, 6 de Janeiro de 2010
Para o homem que telefona...

Ainda Natal? O meu jardim!


Por maria do mar
Gravura de Florbela Moreira

Escrevi coisas, deitei fora, não sou capaz de escrever sobre as rabanadas, o peru, a massa folhada, quem faz melhor, como é que fica, os pastéis, os fritos os sonhos, detesto estas conversas.
Do que eu gosto mesmo é de coisas belas como, por exemplo, hoje... levantei-me, dei uma volta pelo meu jardim, estava tudo molhado, lavado, cheirava bem, as minhas flores estavam felizes!
Pelas folhas da bananeira escorregavam pequenas gotas de água, transparentes, umas mais pequenas do que outras, pareciam cristais. Fiquei ali imóvel, a observá-las.
Mais à frente, nas roseiras do Japão, havia um caracol pequenino...
Perdeu a mãe, pensei, onde irá? Como subiu até aqui? Parece tão indefeso... Eis que aparece um pássaro preto com o bico alaranjado, bem perto de mim, até me assustei, rapidamente percebi que estava a apanhar uma minhoca, espero que os meus gatos não o vejam!
Vai começar a chuviscar, vou para dentro, estou atrasada, por mim ficava aqui eternamente, a natureza é tão bela que faz doer a alma... Ah, como eu sou feliz no meu jardim.

5.1.10

Existe um ponto


Por Isabel das Silvas
Gravura de Florbela Moreira

Que bom saber que existe um ponto onde poderei um dia saborear o silêncio! O silêncio das palavras sem sentido, o silêncio do pensamento. E, para além disso, o tão difícil silêncio da mente, também?
Será que conseguiremos mesmo estar caladas? O pôr em dia as vivências diárias de certeza que se impõe. E as palavras serão salpicos no estar bem.
"Não fazer nada é uma actividade interior" - A.C., claro que sim. Este teu mail reavivou-me a memória. Peguei num dos livros. Folheei-o. Junto a ele estava o "Ofício de viver" - C. Pavese - onde reli "... A arte de estar só". Depois cheguei ao Jean-Yves Leloup e... a mais um livro a reler. Com outro olhar. Li sublinhados de 1980 com olhos de 2010. Neles fui redescobrindo a minha construção. E foi por isso que não te respondi logo. Não sei quando estaremos nesse doce ripanço de nada pensar, mas um dia de certeza será. O problema é que tu julgas que eu vou de carro até ao Algarve, e esse é o meu ponto fraco (ou a minha defesa pois se eu guiasse mais então é que não tinha parança). Daqui para fora, só de transportes públicos ou boleia! Assim, carro comigo só podes contar por estas bandas. Aparece! A Marta está mais ou menos em trânsito, sem saber bem quando volta para Espanha, havendo uma hipótesezinha de ficar por cá. Daqui a uns dias já saberá.
E tu já estás pelo Algarve???
Xau Bjinhos.