
Por
Susana Ruth Vasques
Gravura de
Miguel VasquesPaira à tona da àgua/ Uma vibração, / Há uma vaga mágoa/ No meu coração. / Não é porque a brisa ou o que quer que seja/ Faça esta indecisa/ Vibração que adeja, / Nem é porque eu sinta/ Uma dor qualquer, / Minha alma é indistinta/ Não sabe o que quer. / É uma dor serena, / Sofre porque vê. / Tenho tanta pena! / Soubesse eu de quê!...”Fernando Pessoa, Poesias
Às vezes dou por mim a perguntar o que fiz da minha vida, talvez desde o dia que minha mãe me deu à luz, lá em Lisboa, na maternidade onde nascem tantos bébés, até veio no Jornal: Na Maternidade Alfredo da Costa, Madame W. deu hoje à luz uma encantadora menina! Parabéns ao pai do bébé, Dr. W.
Alguns dias depois, a encantadora menina, que mais parecia uma boneca, tão pequenina era – minha mãe, quando me viu, exclamou: Este é uma boneca, onde está minha bebê, ela falava meio português, meio alemão, confundia os artigos - a Mutti da criança. Já as enfermeiras lhe tinham dito que era uma rapariga, aquela que trouxera no ventre 9 meses e que por um triz teria nascido na praia da Cruz Quebrada, onde o casal W. vivia, desde que fugira da Alemanha nazi.
A Velha Maria, minha ama a partir desse dia, embalava-me nos braços – contaram-me, não me lembro, embevecida cantava: Faz ó ó, minha Susaninha, faz ó ó... Estranhamente, esta cantilena ainda me soa na memória dos ouvidos. Ah, acabo de descobrir que, talvez por causa dessa memória, eu embalava o meu primeiro neto, cantarolando: Ó ó, bébé da avó! E João adormecia, ainda às vezes dou por mim a cantarolar-lhe esta “balada”, hoje, 21 anos depois de ter nascido!
Se eu era encantadora menina, não sei, mas dizem que toda a gente na rua olhava para mim e para meu pai, ou minha mãe, conforme quem me levasse a passear, paravam e faziam comentários sobre a minha graça!...
A certa altura, muito próximo do meu nascimento, apareceu na minha vida mais uma personagem, duas a bem dizer: minha ama-de-leite e sua filha Deolinda, ambas mamávamos de sua mãe, Clementina, se bem me lembro do nome. Deolinda morreu próximo dos 20 anos, no desabamento do telhado da estação de comboios do Cais do Sodré.
Ambas tínhamos brincado com minha irmã de leite, também Susana e meu irmão Rui, nascido 4 anos depois de mim, nas trazeiras da padaria do pai de Deolinda, que nos dava pão acabado de saír do forno, que devorávamos.
Fomos crescendo, companheiras de escola, eu usava o cabelo à Beatriz Costa, tal e qual, diziam as pessoas. De tão negro que era, até tinha reflexos azuis, como os corvos.
O meu cão Jonny, lindo de morrer, lulu branco, sentava-se à porta da casa de banho, enquanto eu me lavava, para não deixar o Rui Miguel espreitar.
O Jonny morreu atropelado e eu nunca mais me aproximei muito de cães, embora minha mãe tivesse sempre um em seu regaço...
Lembro-me de grandes passeios de bicicleta, que fazia com meu pai, aos fins-de-semana.
Lembro-me de minha mãe me tricotar vestidos, um era verde e tinha bailarinas às cores, na orla. Talvez por isso, comecei a ter aulas de bailado aos três anos e a fazer pontas!
Com a D. Clotilde, tocava piano, mas não falava francês...
Seu filho António, gordo como tudo, gostava de mim, mas eu não gostava dele, se não como amigo, ele olhava-me amorosamente e corria para me abrir a porta, assim que eu tocava à campaínha. A mãe de D. Clotilde dáva-nos um bom lanche, pão com manteiga e cacau. Às vezes, o Rui ia comigo e jogava à bola com o Antoninho.
Certo dia, depois do exame da quarta classe, com a querida D.Ilda do carrapito, mudámo-nos para a Graça. Nessa noite dormi com meus pais, disseram que o meu quarto estava em obras, mas de manhãzinha acordei numa cama cor-de-rosa, rodeada de móveis da mesma cor, numa quarto esconço, que adorei. Era a minha mansão de princesa, até a colcha era cor-de-rosa, com malmequeres e eu punha-a à volta dos meus ombros, para ordenar ao meu escudeiro, Rui Miguel, que chamasse a carruagem, puxada a dois alazões soberbos. Deixava meu irmão conduzir, ele tinha jeito e lá íamos nós, mundo fora.
Talvez por isso, somos, ainda hoje, viandantes...
Cresci, enamorei-me aos 10 anos, o meu apaixonado acabou por emigrar para o Brasil, como se deve nos contos de princesas, em que entra uma fada invejosa da felicidade alheia. Há sempre (que las hay, hay)...
No Liceu tive várias paixões, sou uma mulher apaixonada e romântica!
Casei com o meu professor de filosofia, fui feliz e infeliz, separei-me ao cabo de 17 anos, tinha a minha lindérrima filha, essa sim, uma autêntica princesa de contos infantis, 12 anos.
Novas paixões e por aí fora. Voltei a casar com 50 anos, já o meu neto mais velho tinha nascido.
Depois veio o Miguel, cinco anos depois do João, Miguel lhe chamámos, como seu tio (Rui) Miguel. Em vez de ir para a creche, ficou em nossa casa até aos oito meses. Brincava no escritório do R., seu padrinho simbólico, enquanto este escrevia livros para adultos e adultos prodígios (crianças) e lhe contava histórias das mil e uma noites... Foi o R. que, mais tarde, lhe ensinou a pintar e até fizeram juntos uma exposição na SPA, com lucros divididos ao meio! Claro que o Mico vendeu todos os seus quadros! Na véspera da expo, perguntou ao padrinho: E se tu morreres antes do dia da inauguração, o que faço? - Fazes na mesma e ficas com o lucro todo!
E eu? A Susaninha da Maria Velha?
Eu? Trabalhava como jornalista, escrevia crónicas, escrevia Diários, continuava a viajar pelo mundo fora e era feliz e infeliz, como toda a gente!
Um dia, passados vinte e tal anos, comprei uma casa no Algarve e fui viver com um alemão, coisas, provávelmente, do meu passado ancestral.
Sou feliz? Sou infeliz? Como sempre e toda a gente, sou ambas coisas, mas às vezes dou por mim a pensar o que fiz da vida, se errei, se acertei, quantas vezes errei, quantas acertei, na verdade não sei responder ao certo! Terei dupla personalidade? Tripla, quádrupla? Terei sido andorinha numa vida anterior? Às vezes dou por mim a pensar: Susaninha, Susaninha, achas que não te magoaste demais na vida, achas que não magoaste demais os que te amavam? Não sei. Por não saber, choro às vezes, feita menina sem mãe, sem Mutti, sem pai, sem Papi, apesar de lá, nas Alemanhas cheias de brumas, na pátria de Wagner, o Rui Miguel ainda velar por mim, mas quero crer que também já está um pouco fatigado da vida, do trabalho, das emoções, das paixões, das uniões e desuniões, tal como eu...sua única irmã, portanto, a favorita! Desta feita, foi ele que emigrou, há muitos anos, para a pátria de nossos pais.
Chamo a este estado da minha alma melancolia...
Cumeada, 20 de Janeiro 2010