Bloguinho

Um sítio de encontros, virtualmente falando

19.12.09

outra vez natal?

Por Susana Ruth Vasques
Gravura de Miguel Vasques

Ruas iluminadas, presépios. /Festas, comemorações, sorrisos e sérios./As promessas, os guardados.../ Os pedidos, os bilhetes, os segredos./As surpresas e as delícias. / A espera, a noite a caminho. /A janela, cortina de linho. /A árvore, um pinheirinho. /A chaminé, cor de vinho.(Ninfa Parreiras, in “Coisas que chegam, coisas que partem”, Cortez Editora, S. Paulo, Brasil)

Já começam a vir os mails com árvores de Natal, com anjinhos e velas, com desejos de santo Natal – (o natal que é uma festa pagã)! Com palavras de paz, solidariedade, fraternidade, alegria, bem-estar, piedade, compaixão, etecetera e tal!
Uns falam em pobres que não têm Natal, outros em pão e bolos que não chegam a todas as bocas, outros em festa e comida à farta, perus e sonhos, coscorões e fatias douradas, ananás e nozes, pinhões e figos secos, outros ainda dizem que há guerra em muitas frentes e não se devia festejar o santo dia, o tal dia do ano, em que se festeja o nascimento do menino Jesus, um menino como os outros, mas bem comportado, caridoso, sonhador – sonhava com um mundo melhor, certamente!,
E aqueles mails – estamos na era do computador (embora ainda haja quem envie cartões com anjos, velas, bombons e bonecos, tudo mesmo bonito, verdade seja dita, grande negócio também e ainda bem, sempre ganham alguns)... Aqueles mails, dizia eu, que vêm falar da festa da família, da reunião dos filhos e avós, dos tios da província e de alguns amigos solitários, “ah tanta gente, casa cheia, vou ter tanto trabalho, santo Deus, que grande chatice (diz-se em voz baixa), tantas compras para fazer, tantas prendas para embrulhar com fitinhas e tantos nomes para escrever em cada pacotinho ou pacotão, até chega a haver bicicletas e automóveis, com grandes laçarotes, livros e jogos, frigoríficos (o velho está a acabar), máquinas de café especiais, jóias baratas e caras, casaquinhos de malha e peúgas, cuequinhas de renda, caixinhas bonitas com preservativos, caixinhas de pó de arroz, perfumes baratuchos e carotes, CD e DVD, computadores, pianos, quadros, álbuns para vários serviços, caderninhos, caixas com lápis de cor, brinquedos dos mais diversos, sempre muitos, bonecas e casinhas, caminhas, lápis de cor, bolas para jogar no terraço, ou nos jardins, bolas de sabão, patins, sapatos de verniz, botas de salto alto, meias de lã, meias de seda com risca, à antiga, meias eróticas com rendas que colam, o pai Natal traz tudo no seu saco enorme, os meninos escrevem a pedir e os graúdos também.
O que é que eu pedi? ah, já sei, um penico de loiça, dá-me jeito, não me apetece ir de noite a casa de banho e um anel com um brilhante, porque não?, também sou gente, enfim também escrevi, como se deve, a pedir paz e fraternidade e essas coisas todas que um ser bem pensante e bem formado deve pedir.
Juro que nada tenho contra a festa natalícia, até a vou festejar com amigos, oferecer prendas, telefonar à família que está na cidade, eu estou no campo, embora no passado recente nos tivéssemos juntado muitos anos seguidos. Agora não dá muito jeito, embora os netos gostem sempre, ainda e sempre!
O problema é que fazem todos anos pelo Natal...também são quase meninos Jesus... e há que escolher entre aniversários e Natal, às vezes nem uma coisa nem outra, já me doem as costas para andar de cá para lá e de lá para cá...
Peru e bolo rei, sumos de tudo, vinhos brancos e tintos, champanhe, porque não?, arroz de pato e canja de galinha, bombons e mousse de chocolate, arroz doce e leite creme, salada de frutas – com manga e papaia, também – morangos com natas, iguarias sem fim. O menino pobre tem o nariz colado à vitrina de uma pastelaria qualquer – quadro típico da noite de natal, para fazer mal à nossa consciência – mas será que a temos? Claro que a temos, a consciência, canetas de marca e canetas sem marca, gatinhos e cãezinhos de peluche e verdadeiros, quer dizer, vivos, aquários com peixinhos ou gaiolas com passarinhos, vá lá não serem fritos..., como na taberna da minha infância, lá na Graça.
Muitas coisas, muitas coisas, muitas coisas. Será que o pai Natal pode trazer moradias? piscinas? campos de golfe? de ténis? cavalos e picadeiros? espingardas e bombas?
Estou a ser má, eu sei, ou irónica, coisa para nunca tive jeito, mas desculpem lá os meus leitores, bem me conhecem, só venho desejar um Feliz Natal, afinal!
Sítio da Cumeada, vésperas do Natal de 2009

Um presente para o meu filho


Por maria do mar
Ilustração de Florbela Moreira

Dou voltas e voltas e não consigo escolher um presente para o meu filho mais velho; nasceu às 3 da tarde, no primeiro dia de Inverno, mas o dia estava lindo. Entre nós só há 18 anos de diferença. Perfumes, roupas, brinquedos (...já não tem idade...), livros... Mas não gosta muito de ler, com muita pena minha. Como descrevê-lo...é muito alto e forte, diria bem feito, adora desporto e tudo o que é radical, mas tem um ar duro. Por vezes, para quem não o conhece, dá um pouco para o agressivo.
Viajou pelo mundo e várias vezes em missões de paz. Dele recebi as cartas mais lindas que uma mãe pode ler. Escreve-me de Timor, onde está em missão logo após a guerra quando tudo estava destruído.
- Mãe, estes meninos... não têm família, não brincam, não sabem sorrir. Já dei tudo o que tenho, só fiquei com a minha farda. Mãe, manda-me tudo, lápis, cadernos, livros... e eu chorei... Chorei e mandei várias vezes caixas com tudo o que era possível.
- Mãe, hoje dei a água que era suposto ter para o meu dia, não importa, mãe... Eu dava tudo para os ver sorrir.
Mas a carta que ficará sempre no meu coração foi aquela em que ele a certa altura me dizia: - Mãe, desculpa, fui tão mau para ti, agora que conheci estes meninos... Quem dera nunca ter destruído nada, e nunca ter sido mal-educado...
Penso: vou dizer-lhe simplesmente que o amo.
Que posso eu dar a este filho com ar duro e por vezes agressivo, mas com o coração do tamanho do mundo?
Um dia, seremos velhinhos quase ao mesmo tempo e, quem sabe, iremos falar dos meninos de Timor e de todos os meninos sem lar no mundo.
É Natal de novo, faço votos para que outras mães tenham filhos como o meu, e o mundo será certamente melhor.
Amo-te para sempre, meu querido filho!

Nota: Curiosamente, neste mesmo dia recebi um mail a pedir cadernos, lápis, canetas, roupas, brinquedos, para Timor! O mail nada tinha a ver com o Natal, ou por ser a época natalícia! Coincidências!

16.12.09

Um Natal diferente



Por Isabel das Silvas

Gravura de Florbela Moreira


Hoje é Natal. Passaram só algumas horas, mas as ruas há pouco tão cheias, estão vazias. Quando vinha de Lisboa, o último vendedor de rua embrulhava os seus aventais. E, ao chegar a casa, descubro que o Natal não é só a família, as crianças, os presentes. Pode ser o encontro comigo mesma. Este parar, esta pausa, esta solidão, é para me sentir melhor e ver com outros olhos o que me rodeia. Que me perdoem, ou que me esqueçam, aqueles de quem hoje me afastei. A minha festa é aqui. Hoje estou com todos os vagabundos e bêbados. Com todos os que andam de rua em rua. Que disseram não à companhia, ao jantar, ao bacalhau. E que se procuram e encontram aqui, ali e em toda a parte. E fazem barulho com ricochetes de gargalhadas e, ó Céus, ousam macular o silêncio do Natal.

Não escrever… há tanto tempo


Por Isabel das Silvas
Gravura de Miguel Vasques

Um dia é preciso começar. Vencer a inércia, o medo, o deturpar ou mentir. É preciso começar, pegar na caneta. Escrever tudo, escrever nada, mas escrever. Tentar dar forma às letras, às frases que não se agarram ao papel. E ultrapassar as nossas mentiras. Será que escrever é ter memória? Mas escrever deturpa, é memória falsificada. Factos concretos. A sua necessidade no meio da divagação. As duas metades! A necessidade de um trabalho manual e a necessidade de, de repente, poder estar só. A disciplina e a divagação. E as duas urgentes, como se não possa viver sem qualquer delas. E a procura desse equilíbrio. Quantos dias, horas ou minutos demora a saltar a anarquia, a paixão, o escrever, escrever rápido, rápido, solto, sem crítica? Depois, o rigor de escrever parece alinhar as ideias. Durante quanto tempo?, se a escrita não acompanha o pensamento.

15.12.09

Pequeno-almoço

Por maria do mar
Gravura de Florbela Moreira

Para mim, é a hora melhor do dia, levanto-me bem cedo, faço café fresquinho e, enquanto o cheiro invade a minha cozinha, vou enchendo a mesa com pão de várias qualidades, compotas, mel, queijo e, claro, não pode faltar o leite. Cereais, o Francisco adora-os. Tem sido assim ao longo dos anos este ritual, faz parte do dia. É onde nos encontramos todos porque, depois, é só ao jantar. Ao fim-de-semana, ainda é melhor, porque adiciono a leitura, e vou comendo lentamente, falando, lendo, é simplesmente maravilhoso, delicioso. Escovo os dentes a seguir, olho-me ao espelho para ver se estou igual a mim própria e é hora de sair. Hoje faz frio a valer... acho mesmo que é o primeiro dia a sério, até me lembrei das luvas. Paro o carro e dou com os olhos num homem que mal se movimenta, está a pedir, não está embriagado, e que pode muito bem ter a minha idade, mas parece mais velho. Como as vidas das pessoas são tão diferentes. Encolho-me dentro do meu casaco confortável, sinto o croissant na garganta, penso no meu pequeno-almoço. Injusto. Entro mecanicamente no primeiro café que encontrei, compro duas sandes de paio, acho que não deve apreciar queijo, peço também um sumo, assim o pão escorrega melhor, volto, entrego-lhe o saco. Estende-me a mão... obrigada senhora. O quê, eu a senhora, só porque tenho uma mesa cheia e farta! E o que faço amanhã se ele lá estiver???

12.12.09

Adoro peixe e Dançar


Por maria do mar
Gravura de Florbela Moreira

Acabei de chegar. Estive fora três dias, motivos profissionais, e aproveitei para ver alguns amigos de longa data, fui ao Estoril ver e ouvir Jazz (homenagem ao Villas Boas), diverti-me, ri, ri bastante, faz bem à alma. Estava cheia de frio, após ter conduzido duas horas sem parar, não me apetece cozinhar. O meu marido diz-me: vamos lá baixo comer qualquer coisa, e escolhe o lugar é sempre assim já sei o que a casa gasta! Não refilo, deixo-me ir. Quer comer santola. Não, não quero nada frio, quero peixe com legumes, adoro peixe, comes tu a santola. Acaba por querer peixe. A travessa chegou toda arrumada, peixe no lado esquerdo seguido de cenouras, couve flor, depois feijão verde, adoro estas cores juntas, mas há um ovo cozido a espreitar entre os legumes, ou melhor dois ovos, cheira bem. Vejo que começa a arranjar o prato e penso: é para mim, estive fora estes dias, aposto que teve saudades minhas. TOLA mil vezes tola, já devia saber que aquilo não se destinava à minha pessoa mas sim para ele próprio. Por momentos, breves momentos, sonhei que estava sentada a jantar com um cavalheiro. Deste jantar, só aproveitei o peixe, que saboreei até ao fim.
Trocámos olhares, não vou perceber se ele teve consciência do quanto me magoou. Não importa, o peixe estava magnífico.


Dançar

Nos últimos dias, tive o prazer de fazer um trabalho para um casal na idade dos 70. Desde o primeiro dia percebi que o Senhor T. se movimentava com alguma dificuldade mas hoje estava pior.
Perguntei-lhe se tinha sofrido um acidente, ou qualquer coisa parecida. Não, respondeu-me, é que estivemos a dançar ontem a noite... mas as minhas pernas já não são o que eram... A dançar? Como assim!, perguntei-lhes. Contaram-me então que trabalharam bastante toda a vida mas que também viajaram e que dançavam bastante e que, desde que vivem no Algarve, iam aos fins-de-semana para Albufeira, Carvoeiro, Portimão... só para dançar. Agora, como já não gostam de conduzir à noite, dançam em casa, ao som das suas músicas preferidas.
Fechei a boca, olhei-os, tinham um brilho nos olhos indescritível, percebi que se amam, são casados há 52 anos. Simplesmente lindo. Confesso que os invejei. Dançar em casa. Viva ao amor.

1.12.09

Chegou o Outono...


Por maria do mar
Gravura de Florbela Moreira

Acendo a lareira. Da janela bem grande posso ver centenas, talvez milhares de folhas
voando e caindo, formando um tapete de cores verdes, castanhos, laranjas amarelos, vermelhos, como Arraiolos ali mesmo no meu jardim. Aconchego-me, cheira a lenha... que cheirinho bom... bebo um chá, tenho esta mania, herdei-a da minha mãe.
Esqueci-me da música... chegam os meus gatos, atraídos pelo calor, já me conhecem .
Fico assim, num quase silêncio, não fosse um pau estalar de vez em quando. Confortáveis, os meus gatos aninham-se perto de mim, enlaçam-se...
E eu? Os meus pensamentos voam, voam tão rápido como as folhas. Por momentos, sinto que está alguém perto de mim!
Tento abraçá-lo... seria perfeito. Mas é só a minha imaginação.

30.11.09

Conhecemo-nos há tantos anos…


(páginas de um Diário)

Por Isabel das Silvas
Gravura de Florbela Moreira

Com calor abrasador mas também com chuva, em todas as estações do ano subo aquela calçada há tantos anos… Não é fácil aquele quase trepar, íngreme e longo.
Vou devagar. Oiço os pássaros, olho as suas árvores... Neste Outono reencontrei os cogumelos nos seus troncos.
Tudo parecia conhecido, mas de súbito surpreende-me um fruto-bolinha cor-de-laranja em cima do muro.
Nariz no ar, descubro a árvore-mãe e, também para lá do muro, o jardim em que nunca tinha reparado. Lindo, lindo e, por acaso, acabado de nascer para mim. Como nunca o tinha visto?
Tantos dias a subir a calçada sem tudo ver. Rápido o absorvo e junto à memória feliz dos meus sentidos. Quando regresso, também no chão junto às raízes, os cogumelos lá me esperam. Na semana seguinte, ainda lá estarão?

19.11.09

diário de hoje



por maria do mar
gravura de Florbela Moreira

O dia foi complicado, cheio de burocracia, mas consegui não deixar pendentes, tenho Pilates mas detesto chegar atrasada, vim a casa, os meus gatos amigos fiéis estão a minha espera no sítio onde lhes dou de comer, trato deles - três - e enquanto se lambem após o petisco, eu corro de um lado para o outro, troco de roupa e vou para o spa, vou ouvindo o Seal pelo caminho, canta divinamente, é o negro mais feio/lindo que conheço.
É dia de marido... Estou a entrar em casa mas o telefone toca, é ele a dizer que afinal não vem, tem uma máquina avariada, "não desanime, nem sequer fique desiludida..."
Tomei um duche bem quente, sempre escoltada pelos meus gatos, fui para a cozinha, preparei uma coisa rápida, fui buscar o livro que está quase no fim, acendi uma vela, adoro velas, comi lentamente enquanto ia lendo e fiz de conta que estava acompanhada p’lo homem aquele dos meus sonhos e que um dia será real...